Base Sector
Setor Base: Aprender Ensinando
“Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobrirem que era possível ensinar”.
Paulo Freire*
Por mais um ano, o Setor Base, que intersecciona projetos expositivos com uma série de conversas, coloca luz em artistas que, em conjunto com suas práticas artísticas, também atuam como docentes, seja na academia formal ou em modelos alternativos de ensino e transmissão de conhecimento. Se hoje estamos aqui na ArPa, é porque existem artistas: criando, pensando, elaborando, manufaturando… e alguns destes também ensinando e formando uma futura geração de artistas. Acreditamos que artistas que conciliam seu trabalho pessoal com a prática de ensino são fundamentais para a sustentação da comunidade artística e merecem reconhecimento público por esta atuação.
Nos interessa também, com esta abordagem no Setor Base, entender como as funções se retroalimentam, ou seja, o artista atuante leva para o lugar de ensino sua prática de ateliê, assim como traz desta troca com o aluno ensinamentos e inspirações para o seu ateliê. As artistas convidadas para integrar o setor nesta edição, Ana Mazzei, Anna Bella Geiger, Iole de Freitas e Mônica Nador, abordam a prática de ensino de maneira integrada, trazendo para si esta noção de que, como diria a pedagoga e escritora bell hooks, “toda sala de aula em que for aplicado um modelo holístico de aprendizado será também um local de crescimento para o professor, que será fortalecido e capacitado por esse processo.”2
A artista multidisciplinar Ana Mazzei revela que, em seus 47 anos de vida, nunca saiu da escola. Entre educação básica, superior e mestrado, seguido de seu ingresso como professora acadêmica e orientadora artística, sempre esteve, de alguma forma, na sala de aula, local que para ela se traduz como um mundo à parte, pautado pela intensa troca de contato com o outro. Este entusiasmo em estar em contato com o diferente se reflete também em sua prática multidisciplinar e seu interesse por artes além das visuais, como a dança e o teatro. Para seu projeto no Base, Mazzei convidou Renan Marcondes, dançarino, performer e pesquisador, com o qual colaborou previamente em textos críticos e na elaboração do jogo lúdico Cartas para Dança. O texto sobre a apresentação da dupla e a mediação da conversa serão realizados pela curadora Galciani Neves.
Anna Bella Geiger, além de ser uma das expoentes da arte conceitual na América Latina, iniciou sua atuação como professora ao final da década de 1960, inicial- mente em seu ateliê, recebendo jovens artistas a fim de transmitir conhecimento e praticar arte, e logo iniciando sua atuação nas instituições de ensino, onde segue até os dias atuais. O ensejo de ensinar influenciou seu pensamento e sua obra, e a prática educacional segue acompanhando e alimentando seu processo artístico. Em sua participação no Base, convida a artista Ana Hortides, que foi sua aluna e trabalhou como sua assistente. Juntas, mostram a relação com os territórios em suas obras, em uma perspectiva do pessoal para o público, e compartilham o interesse pela experiência coletiva, memórias vividas e elaboração formal. Ambas as artistas convidaram a pesquisadora Gabriela de Laurentiis para escrever seu texto e mediar a conversa.
Apesar de atuar como professora, tanto na universidade como em instituições de ensino, desde 1994, Iole de Freitas não se sente confortável com o termo pedagogia e docência. A prática de ensino da artista parte de uma ótica não hierarquizada, na qual seu trabalho é primordialmente guiar um grupo de artistas de idades, etnias e gêneros variados, em encontros onde trocam reflexões, interpretações e percepções visuais. Neste contínuo compartilhamento de vivências e saberes, a artista se vê formando, mas também sendo formada por estes alunos. Seu pensamento sincrético e abrangente também permeou sua escolha para o Base. Para estar ao seu lado, convidou o grupo Escolas Vivas, movimento de apoio ao fortalecimento e à transmissão de saberes tradicionais em cinco territórios indígenas: Guarani, Maxakali, Huni Kuin, Baniwa e Tukano-Desana-Tuyuka. A mediação da conversa entre Iole de Freitas, Cristine Takua e Carlos Papá será feita por Galciani Neves, assim como o texto sobre o projeto.
Mônica Nador traz para o Base o JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube), iniciativa criada por ela em 2004, gerida e pensada coletivamente, a qual atua como um espaço cultural na zona sul de São Paulo. Com foco em aproximar a estética da política a partir de práticas integradas ao cotidiano, o JAMAC oferece à comunidade local, de forma gratuita e sem fins lucrativos, oficinas de estêncil e estamparia, desenvolvimento de produções audiovisuais e sessões de cinema, grupos terapêuticos e ateliês-clínicas com mediação de psicanalistas, além de ações de cidadania com aulas e debates sobre memória cultural periférica e justiça ambiental. A maneira não convencional de pensar e ensinar arte, assim como seu desejo por transformação social, extrapola os limites entre ateliê e lugar de ensino, prática pessoal e prática docente, privado e público, individual e coletivo, sendo a participação no Base, assim como sua representação pela galeria Vermelho e suas exposições institucionais, assinada coletivamente como JAMAC.
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FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996
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hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013
Programming
28.05, quinta- feira às 14h30
Paisagens pra lá e pra cá
As artistas Anna Bella Geiger (Mendes Wood DM) e Ana Hortides conversam com a pesquisadora Gabriela de Laurentiis.
38.05, quinta-feira às 17h
De gestos e sopros: os encontros
A artista Iole de Freitas (Raquel Arnaud) e Cristine Takua e Carlos Papá (Escolas Vivas em parceria com Comdre) conversam com a curadora Galciani Neves.
29.05, sexta-feira às 14h
C-O-R-P-O
A artista Ana Mazzei (Martins&Montero) e o performer Renan Marcondes conversam com a curadora Galciani Neves.
29.05, sexta-feira às 17h
JAMAC: Floricultura de histórias
Integrantes do JAMAC (Vermelho) conversam com a curadora Lisette Lagnado.





